Falta ao Brasil liderança para promover o português globalmente

Publicado pela primeira vez por Folha de São Paulo

Dia da Língua Portuguesa
Num mundo em turbulência o papel da diplomacia longe de ter esvanecido é cada vez mais importante. Os valores e os princípios da prática diplomática são o resultado de uma longa trajetória, influenciada por momentos às vezes pacíficos, outras vezes belicosos, marcados pelas relações de força. Temos, porém, muitos exemplos de momentos históricos em que o protagonismo foi roubado por atores que não pareciam ser os mais fortes. Ou porque praticaram a neutralidade, se posicionaram no lugar certo, por terem algumas vantagens económicas ou outras sobre os demais ou, pura e simplesmente, porque tinham líderes com dimensão global capazes de transcender os limites das suas origens.

O papel da língua na afirmação diplomática foi crescendo à medida que as comunicações se tornaram mais fáceis. Com o acesso quase ilimitado ao saber proporcionado pela internet a globalização entrou, literalmente, nas casas de quase todos e o colossal conhecimento acumulado acessível na palma da mão. Para tal basta dominarmos a linguagem da internet e para esta precisamos de uma língua. Se admitirmos que o inglês é de facto a língua franca da tecnologia é natural que aos poucos, sobretudo junto das camadas mais jovens, o seu poder de sedução seja irresistível.
Não devemos negar que quanto mais se dominar a língua franca maior é o papel que se pode desempenhar no espaço diplomático. Quem redige melhor domina a nuance e é sofisticado em se exprimir em inglês, marca pontos em qualquer negociação. Mas não foi sempre assim nem têm de continuar sendo assim.

Em meados do século XIV, o francês tornou-se a língua mais falada na Europa e assim adquiriu o seu estatuto de língua da diplomacia no espaço internacional da época. Apesar da Guerra dos Cem Anos, que terminou em 1453, ter um impacto sobre o nacionalismo inglês, ao ponto das autoridades inglesas tentarem banir o francês, a realidade é que o francês continuou a prosperar como a língua da diplomacia em toda a Europa. Nos dias de hoje vemos as tensões entre países poderosos ocuparem o terreno geopolítico e levarem em particular a China em disseminar o mandarim de forma agressiva.
O português é a sexta língua mais usada na internet, mas das que a precedem o malaio-indonésio não têm projeção diplomática. As outras quatro – inglês, mandarim, espanhol e árabe- têm sim o estatuto de língua oficial nos organismos internacionais e estão todas em crescimento. Mas o paradoxo é que duas outras com igual reconhecimento internacional – o francês e o russo- estão a ser distanciadas cada vez mais pelo português em número de falantes e penetração na internet.

Uma política para consolidar o que a demografia facilita e a descontinuidade geográfica do espaço lusófono potencia requer uma estratégia muito mais elaborada e uma motivação política muito forte. Só o Brasil dispõe do conjunto de elementos que possam puxar esta carroça. Ora o Brasil por enquanto contenta-se com o programa “Brasil Cultural” para divulgar a língua. Apesar de estar presente em mais de 40 países quase ninguém ouviu falar deste programa. Nada de próximo aos meios que outros concorrentes empregam e longe da conexão entre língua e o chamado soft power, uma abordagem das

relações internacionais, geralmente envolvendo o uso de influência econômica ou cultural.
A CPLP anda coxa e sem nenhuma saliência diplomática até quando os países de língua portuguesa são os protagonistas ou teatro de crises. A promoção de conteúdos em língua portuguesa fica ao sabor das capacidades de tradução da inteligência artificial da Google ou outros motores de pesquisa. Nenhuma Universidade de língua portuguesa está presente entre as 100 melhores de qualquer ranking internacional, o número de patentes registados junto da Organização Mundial da Propriedade Intelectual é pífia.

O espaço de língua portuguesa pode comemorar algumas vitórias, como ter o atual Secretário-Geral da ONU, o português António Guterres, ou ter o Brasil nos BRICS, mas é preciso reconhecer que estes espasmos não são parte de uma estratégia. Se o maior, mais influente, mais poderoso país de língua portuguesa não lidera os restantes não voam.

Carlos Lopes
Professor da Mandela School of Public Governance, Universidade da Cidade do Cabo, Africa do Sul e antigo Embaixador da ONU no Brasil