A AFRICA E O FIM DAS CERTEZAS MULTILATERAIS
Por Carlos Lopes
Receber este Prémio, atribuído pela Universidade de Cabo Verde, é para mim uma distinção de profundo significado. Honra-me enquanto académico, mas compromete-me, sobretudo, porque o meu percurso intelectual e o meu posicionamento político têm sido atravessados, de forma constante, pela reinvidicação da sua filiação ao pensamento de Amílcar Cabral.
Cabral foi mais do que um líder da libertação africana. Foi um pensador rigoroso da legitimidade política, fundada em princípios que permanecem centrais: os direitos, a dignidade humana, a soberania e a autodeterminação dos povos. A sua reflexão partia das realidades concretas das sociedades colonizadas, sem nunca perder de vista a dimensão internacional da luta.
A atenção que dedicou às Nações Unidas e ao multilateralismo exprime essa consciência estratégica. Cabral compreendeu cedo que esses espaços não garantiam justiça por si mesmos, mas constituíam arenas decisivas de reconhecimento, negociação e afirmação política dos povos africanos.
É a partir desse legado intelectual e ético que proponho a reflexão que se segue.
Vivemos um momento de rutura profunda na ordem internacional. Não se trata apenas de uma fase de transição ou de ajustamento gradual, mas de uma transformação estrutural que atinge os próprios fundamentos do sistema global tal como o conhecemos nas últimas décadas. As certezas que sustentaram o multilateralismo — regras comuns, instituições previsíveis, consensos negociados — estão a desaparecer, substituídas por um ambiente de fragmentação, competição e instabilidade estratégica.
Durante muito tempo, falou-se de uma “ordem internacional baseada em regras”, apoiada em instituições como as Nações Unidas, o Tribunal Internacional de Justiça, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial do Comércio ou os grandes regimes de cooperação económica e financeira. Essa ordem prometia previsibilidade, estabilidade e benefícios partilhados. Hoje, porém, são precisamente os seus principais arquitetos que mais frequentemente contornam, reinterpretam ou ignoram essas regras.
O multilateralismo, em vez de um espaço de coordenação coletiva, tornou-se um campo de disputa seletiva, onde as normas valem de forma desigual.
O poder global deixou de ser hierárquico e relativamente estável. Tornou-se fragmentado, fluido e situacional. Os Estados Unidos concentram-se cada vez mais na resiliência económica interna e na competição estratégica; a Europa debate-se com divisões internas e com a dificuldade de transformar princípios normativos em ação eficaz; a China, a Índia e outros atores emergentes articulam projetos próprios, nem sempre convergentes entre si. Ao mesmo tempo, alianças tornam-se mais táticas do que estruturais, e o alinhamento ideológico cede lugar a parcerias pragmáticas e contingentes.
Neste contexto, a ideia de consenso multilateral — entendida como longos processos de negociação que culminam em declarações mínimas, frequentemente sem implementação efetiva — está a perder relevância.
O mundo de hoje exige rapidez, capacidade de execução e resultados tangíveis. A legitimidade internacional já não deriva apenas da representação formal ou da adesão a princípios abstratos, mas da capacidade de responder a problemas concretos: dívidas soberanas colossais, alterações climáticas, desigualdades tecnológicas, migração, segurança alimentar e energética.
É aqui que o conceito de “disrupção” deixa de ser exceção e passa a ser norma. A disrupção tornou-se uma condição permanente do sistema internacional. Não é um episódio a gerir, mas uma característica estrutural com a qual todos os atores — Estados, instituições, regiões — têm de aprender a operar. Nesse sentido, a instabilidade não é um desvio temporário da ordem: é o novo terreno sobre o qual a política global se desenrola.
Para muitas regiões do mundo, esta transformação representa sobretudo uma ameaça. Para África, porém, ela encerra uma ambiguidade mais profunda — e potencialmente mais produtiva. O continente entra neste momento de rutura sem estar excessivamente investido na preservação da ordem anterior, uma ordem que, historicamente, o penalizou.
Regras comerciais assimétricas, regimes de dívida restritivos, escasso acesso a capitais, exclusão tecnológica e marginalização política marcaram a experiência africana no sistema multilateral. Há, portanto, menos a perder na erosão dessas certezas e, paradoxalmente, mais espaço para imaginar alternativas.
Durante décadas, o protagonismo africano foi exercido de forma predominantemente defensiva. Estados africanos concentraram-se em gerir expectativas externas, preservar estabilidade política interna e responder a agendas definidas fora do continente. Essa postura foi, em muitos momentos, uma resposta racional a constrangimentos severos: Guerra Fria, ajustamentos estruturais, dependência financeira, fragilidade institucional.
No entanto, também produziu uma relação com o sistema internacional baseada mais na adaptação do que na transformação. Um das cnsequências palpáveis desse popsicionamento foi a manutenção de Africa como fornecedor de matériasprims com pouco valor acrescentado.
Hoje, essa posição defensiva já não é inevitável. A fragmentação do poder global cria margens de manobra inéditas. Num mundo sem centro claro, onde nenhuma potência consegue impor sozinha as regras do jogo, a capacidade de navegar entre múltiplos parceiros torna-se um ativo estratégico. Muitos países africanos já o fazem, articulando relações com diferentes atores — ocidentais, asiáticos, do Médio Oriente — sem alinhamentos rígidos e com maior autonomia de decisão.
Essa flexibilidade, no entanto, não é suficiente por si só. O verdadeiro desafio é transformar a margem de manobra em capacidade estruturante: usar o momento de transição não apenas para negociar melhores termos dentro do sistema existente, mas para influenciar a forma como o sistema está a ser reconfigurado. Isto implica passar de uma lógica de reação para uma lógica de proposição.
Um dos domínios onde essa transformação é mais evidente é o da economia política global. O comércio internacional já não funciona segundo a promessa de liberalização progressiva e benefícios mútuos. Tarifas estratégicas, subsídios industriais, políticas de segurança económica e mecanismos como o ajustamento carbónico nas fronteiras mostram que o comércio é hoje um instrumento de competição geopolítica intensa. As regras continuam a existir, mas são cada vez mais aplicadas de forma seletiva, frequentemente em benefício dos países com maior capacidade económica e tecnológica.
Para África, isto coloca um dilema claro. Permanecer um exportador de matérias-primas num sistema aceleração protecionista significa aceitar uma posição estruturalmente vulnerável. Com inteligência e estratégia é possível aproveitar a fragmentação do comércio global também para abrir espaço para políticas industriais mais assertivas, para integração regional mais profunda e para a redefinição das cadeias de valor. A Área de Livre Comércio Continental Africana é um exemplo de como o continente pode responder de forma estratégica à erosão do multilateralismo clássico, reforçando mecanismos próprios.
A tecnologia constitui outro eixo central desta transformação. Inteligência artificial, computação avançada, biotecnologia e digitalização estão a redefinir não apenas a economia, mas as relações de poder globais. Estas tecnologias não são neutras: incorporam escolhas políticas, modelos de governação e interesses económicos. Se África permanecer um consumidor passivo dessas inovações, as desigualdades existentes tenderão a aprofundar-se. Se, pelo contrário, conseguir participar ativamente na definição de normas, na construção de capacidades e na governação tecnológica, poderá influenciar de forma significativa o futuro sistema global.
O mesmo se aplica às dinâmicas demográficas. Enquanto muitas regiões enfrentam envelhecimento acelerado e escassez de mão de obra, África possui a população mais jovem e a força de trabalho em maior crescimento do mundo. No entanto, esta realidade continua a ser tratada predominantemente como um risco — associado à migração irregular ou à instabilidade — e não como uma oportunidade de co-desenvolvimento. A incapacidade do sistema internacional de articular mobilidade laboral, investimento produtivo e desenvolvimento humano revela, mais uma vez, os limites do multilateralismo existente.
Neste cenário, torna-se evidente que o problema não é apenas o enfraquecimento das instituições multilaterais, mas a sua inadequação às condições atuais. Instituições concebidas para um mundo mais lento, mais previsível e mais hierárquico lutam para responder a uma realidade marcada por velocidade, complexidade e interdependência assimétrica.
Reformar o multilateralismo não significa restaurar o passado, mas repensar profundamente os seus objetivos, instrumentos e critérios de legitimidade. Para África, isto implica uma escolha estratégica. O continente pode limitar-se a adaptar-se pragmaticamente à nova desordem global, explorando oportunidades pontuais sem alterar estruturas profundas. Ou pode assumir um papel mais ambicioso: contribuir ativamente para a construção de um multilateralismo diferente, menos baseado em regras herdadas e mais orientado para resultados, inclusão e justiça estrutural.
O fim das certezas multilaterais não deve, portanto, ser entendido como um colapso terminal, mas como um momento constitutivo. Um momento em que novas normas, novas instituições e novas hierarquias estão a ser formadas. A questão central é quem participa nesse processo e em que condições.
Se África conseguir articular a sua diversidade interna, fortalecer a cooperação regional e investir em capacidades estratégicas — económicas, tecnológicas e políticas — poderá deixar de ser objeto da reorganização global para se tornar sujeito ativo da sua definição.
Neste mundo em disrupção permanente, a estabilidade não virá da restauração de velhos consensos, mas da capacidade de navegar a incerteza com propósito e direção.
Os desenvolvimentos mais recentes confirmam, com uma clareza difícil de ignorar, a tese que aqui procurei sustentar. Aquilo que durante anos foi tratado como hipótese crítica tornou-se hoje constatação partilhada: a ordem internacional entrou numa fase de rutura aberta. Não estamos perante uma transição controlada, mas perante uma descontinuidade estrutural que redefine as condições da política global.
Relatórios prospectivos e análises estratégicas reconhecem que a incerteza, a fragmentação e a competição passaram a ser características permanentes do sistema internacional. Conflitos prolongados, ciclos eleitorais instáveis, crises económicas recorrentes e a instrumentalização das interdependências tornaram o mundo mais permissivo ao uso do poder e menos capaz de produzir consensos eficazes. A linguagem da cooperação permanece, mas já não organiza o comportamento dos atores dominantes.
É particularmente significativo que este diagnóstico seja hoje assumido por líderes políticos no centro do sistema. O recente discurso do primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, em Davos, ao reconhecer explicitamente que vivemos uma rutura — e não uma transição — e que o chamado sistema internacional baseado em regras funcionou durante demasiado tempo como uma ficção conveniente, marca um momento de honestidade política raro. Ao afirmar que já não é possível “viver dentro da mentira” de uma ordem que aplica princípios de forma seletiva, Carney deu voz a uma realidade há muito vivida no Sul Global.
Mas esse reconhecimento traz consigo uma consequência decisiva. Se até os chamados poderes intermédios admitem que as garantias multilaterais se esvaziaram, então o espaço para novas formas de agência política alarga-se. A resposta emergente não é o isolamento puro nem a submissão resignada, mas a construção de geometrias variáveis: coligações flexíveis, parcerias seletivas e cooperação orientada para resultados concretos.
Antes de abordar diretamente a questão da soberania num sistema internacional em mutação, é indispensável compreender como a convergência entre geopolítica, tecnologia e tempo político está a redefinir, de forma silenciosa mas profunda, as condições do poder e da legitimidade.
O que distingue o momento atual não é apenas a centralidade da tecnologia, mas a forma como a inteligência artificial altera os próprios critérios de poder no sistema internacional. Pela primeira vez, capacidades estratégicas fundamentais — previsão, decisão, vigilância, otimização logística, modelação climática ou financeira — dependem menos de território ou população e mais de acesso a dados, capacidade computacional e arquiteturas algorítmicas.
Hoje, um número muito reduzido de países concentra a esmagadora maioria da capacidade global de computação avançada, enquanto um pequeno conjunto de empresas controla as infraestruturas críticas de treino dos modelos mais poderosos. Isto introduz uma nova hierarquia internacional que escapa às categorias clássicas da soberania e desloca o poder para infraestruturas técnicas, frequentemente privadas e pouco transparentes.
A inteligência artificial produz também novas formas de legitimação política. Estados e governos passam a fundamentar a sua autoridade não apenas na representação, na legalidade ou na redistribuição, mas na promessa de eficiência algorítmica: melhor previsão económica, policiamento “inteligente”, gestão automatizada de serviços públicos, controlo de fronteiras e alocação de recursos baseada em modelos preditivos. Esta tecnificação da legitimidade desloca o debate político para o terreno da performance técnica, onde a pergunta central deixa de ser “quem decide?” e passa a ser “quem calcula melhor?”. Num sistema internacional já fragilizado, esta lógica aprofunda assimetrias entre quem concebe os modelos, quem controla os dados e quem apenas é governado pelos seus resultados.
Ao mesmo tempo, a IA reconfigura práticas muito concretas de poder global. Sanções tornam-se algorítmicas, cadeias de abastecimento são reorganizadas em tempo quase real, riscos políticos são automaticamente precificados e decisões de investimento passam a ser mediadas por sistemas que incorporam pressupostos geopolíticos embutidos no código. A capacidade de excluir um país, uma empresa ou um setor de um ecossistema tecnológico — seja através de controlos de exportação, regimes de licenciamento ou restrições de acesso a infraestruturas digitais — revela-se hoje tão eficaz quanto os instrumentos clássicos de coerção, mas mais opaca e muito mais difícil de contestar nos espaços multilaterais.
Para África, isto representa um desafio qualitativamente novo. O risco já não é apenas ficar à margem da inovação, mas ser integrada de forma subordinada em sistemas que extraem dados localmente, treinam modelos noutros contextos e devolvem decisões automatizadas com impacto direto sobre crédito, segurança, mobilidade, saúde ou agricultura. Ao mesmo tempo, África ocupa uma posição central em vários destes sistemas: dados demográficos, climáticos, linguísticos e territoriais produzidos no continente são essenciais para o funcionamento de muitas arquiteturas de IA. Transformar essa centralidade em poder político exige escolhas conscientes — regimes próprios de dados, investimento em capacidades computacionais regionais e coordenação normativa africana — e a recusa explícita da ideia de neutralidade tecnológica.
Estas transformações recolocam, de forma particularmente aguda, a questão da legitimidade política no sentido profundo que Amílcar Cabral lhe atribuía. Para Cabral, a legitimidade não derivava da eficiência técnica nem do reconhecimento externo, mas da correspondência entre poder político, verdade social e dignidade vivida. A governação algorítmica, ao privilegiar rapidez, otimização e opacidade técnica, tende a romper essa correspondência: decisões tornam-se eficazes sem serem compreensíveis, justificáveis sem serem partilháveis, corretas no cálculo mas frágeis no reconhecimento. Num contexto africano marcado por histórias de dominação e desconfiança institucional, esta deslocação pode aprofundar a distância entre Estado e sociedade em vez de a reduzir.
Esta tensão é agravada por uma transformação temporal profunda: a política passou a operar sob um regime de imediatismo permanente, frequentemente descrito como i-speed. A aceleração imposta pelas plataformas digitais, pela circulação instantânea de imagens e pela comunicação em tempo real encurta drasticamente o intervalo entre experiência, expectativa e contestação.
Foi esta compressão do tempo político que alimentou as mobilizações juvenis no Cairo e em Túnis, e que reaparece hoje, com novas linguagens e reivindicações, em Dakar, Lagos, Maputo, Dar-es-Salaam, Nairobi, Kampala, Antananarivo ou Casablanca. Não se trata apenas de protestos contra políticas específicas, mas da rejeição de sistemas políticos que operam noutro ritmo, com outras prioridades e através de linguagens técnicas — jurídicas ou algorítmicas — que não produzem reconhecimento nem dignidade no presente.
Num mundo em que a soberania se mede cada vez mais pela capacidade de resistir à coerção, África terá de investir em autonomia estratégica — em energia, alimentação, finanças, tecnologia e segurança. Mas a resposta não pode ser a construção de fortalezas isoladas. Um mundo de fortificações seria mais pobre, mais frágil e mais desigual. A alternativa está na partilha dos custos da resiliência, na integração regional e na criação de padrões comuns que reforcem complementaridades.
Aqui, a integração africana deixa de ser apenas um ideal político e torna-se uma exigência estratégica. A coordenação regional, o fortalecimento de mercados internos, a harmonização de políticas industriais e digitais e a afirmação de posições comuns nos espaços internacionais são instrumentos centrais para transformar vulnerabilidade em influência.
Mais do que isso, África pode contribuir para redefinir o próprio sentido do multilateralismo: não como nostalgia institucional, mas como prática orientada para resultados, inclusão e entrega efetiva de bens públicos globais. Um multilateralismo capaz de funcionar num mundo sem centro único, reconhecendo a pluralidade de trajetórias e interesses.
O fim das certezas multilaterais não é, portanto, o fim da política internacional. É o fim de uma ilusão confortável — e, como tantas vezes na história, é precisamente quando as ilusões caem que se abrem espaços para a verdade, para a responsabilidade e para a criação.
Para África, isso significa transformar a ausência de legado a preservar numa vantagem estratégica: a liberdade de imaginar, propor e construir um lugar próprio numa ordem internacional ainda em formação. No momento em que o multilateralismo deixa de oferecer garantias, o legado de Amílcar Cabral afirma-se como método crítico: pensar a política a partir da verdade concreta, da legitimidade e da autodeterminação dos povos.
Speech at University of Cabo Verde, Praia